Aquele livro
O encontro marcado.
Fernando Sabino
Passei toda minha infância longe da cidade, num sítio onde havia um pé de jabuticaba, muitas árvores, muito verde, muitos passarinhos. Provei das delícias de colher fruta madura do pé, de andar com os pés descalços e de correr livremente pela grama, sem ter medo de nada. Foi muito difícil estudar. Meus pais possuíam poucos recursos para oferecer a mim a aos meus dois irmãos menores. Estudei até a quarta série numa escola rural, onde os filhos dos agricultores e dos funcionários da cerâmica compartilhavam as mesmas carteiras. Lembro-me que a professora se desdobrava para atender as quatro séries ao mesmo tempo e na mesma sala de aula. Apesar da falta de recursos e do desconforto, havia um tempo reservado para brincar nos arredores da escola. E como brinquei, como corri, como fui feliz!
Iniciei o período ginasial na cidade. Me empenhei muito nos estudos.
Passei a conhecer através dos livros m
uitos
lugares, personalidades, romances.
Os anos que se seguiam foram marcados por boas notas e entreguei-me totalmente aos livros. Com dezessete anos, já havia lido Gandhi, Jorge Amado, Érico Veríssimo, José Mauro de Vasconcelos e muitos outros.
Lia muito Fernando Sabino, li O grande mentecapto, O menino no Espelho, O encontro marcado, o conto O homem nu. Há livros que realmente marcam a vida de um jeito que serão lembrados para sempre.
O meu livro preferido do Fernando Sabino foi “O encontro Marcado”, de Fernando Sabino. Relata a história de um adolescente desesperado a procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Houve uma forte identificação com os relatos em relação aos desencantos, melancolia e a busca pelo encontro com uma antiga verdade. Foi através dessa leitura e de outras que eu pude entender o que acontecia comigo e me ajudou a refletir sobre quem eu era e o que desejava ser...
Na capa a frase que levo comigo:
“Ele faria da queda um passo de dança,
do medo uma escada, do sono uma ponte,
da procura um encontro”
Mais trechos do livro:
“...Há uma fresta em minha alma por onde a substância do que sou está sempre escapando mas não vejo onde nem por quê. Depressa não há tempo a perder. Também tenho o meu preço mas ninguém conseguirá me comprar. Todo o dinheiro do mundo não basta, hei de escapar como água entre os dedo da coisa que me aprisiona entre os dedos, hei de fluir como um rio, dia e noite, me que tenha de dormir em pé...a literatura não adianta e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa...
“Fazer da interrupção um caminho novo”.
Eu com o meu livro e a foto ficou escura...